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Estamos no primeiro domingo da quaresma que é este tempo de preparação para a solenidade da Páscoa, centro da fé cristã. A palavra quaresma vem do latim quadragesima significando quarenta. É o período de quarenta dias, subsequentes à Quarta-feira de Cinzas este ano até 9 de abril.

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal o Evangelho nos fala das tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11).

Isto vem lembrar que nenhuma vida humana se desenrola sem o combate contra o inimigo infernal. O texto de São Mateus se refere ao demônio que é o diabo, ou seja, aquele que divide, desune, rompendo a unidade do ser humano, o qual, sendo criatura, é induzido a se rebelar contra o seu Criador e a romper a união com os irmãos e irmãs.

O Evangelista usa também o termo tentador porque o diabo procura seduzir para o mal. Jesus usa ainda a palavra satanás, porque o diabo é o pai da mentira, o acusador ou caluniador. Suas artimanhas visam suscitar nos seres humanos o ter, o saber e o poder, fora dos planos divinos.

Às malignas insinuações do demônio Jesus opôs a Palavra de Deus. A seu exemplo o cristão assediado pelo demônio se apoia no seu Senhor para receber a força do Espírito Santo e se ajustar sempre à vontade divina a bem próprio e dos outros. O que Jesus recusou ao diabo Ele o faria para os outros. Com efeito, ele não quis sabiamente mudar as pedras em pão, mas depois multiplicaria cinco pães para saciar a fome de uma multidão que o seguia num lugar deserto.

Na última Ceia transubstanciaria o pão em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade para saciar pelos tempos afora a fome espiritual de seus seguidores, instituindo o Sacramento da Eucaristia. Ele descartou todo poder e glória terrestres propostos pelo demônio.

Revelaria, porém, sua realeza em todo seu esplendor, transformando a ignomínia da sua cruz em cruz vitoriosa e gloriosa, oferecendo a salvação a todos que O acatassem. Milhares que através dos tempos proclamariam que Ele é, de fato, o Rei imortal dos séculos. Uma multidão de discípulos que se revestiriam de seu incomensurável amor. Para ser um modelo para seus seguidores Ele não quis escapar à tentação.

Ele foi tentado, mas desmascarou o tentador que não teve nenhum poder sobre Ele. Deu uma ordem peremptória ao inimigo infernal: “Vai-te satanás, pois está escrito: “Adorarás ao Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”. Ele que ensinaria seus discípulos a pedir ao Pai: “Não nos deixeis cair em tentação”, havia ministrado uma lição de como não sucumbir às insinuações diabólicas. Ele estaria sempre ao lado de seus fiéis que estivessem dispostos a se libertar do pecado. Admirável, sem dúvida, a maneira pela qual Jesus quis afrontar as tentações, mostrando-se enquanto homem, vencedor do príncipe das trevas.

Nesta cena das tentações seus discípulos poderiam vislumbrar como Jesus travou, enquanto homem, o combate espiritual, saindo triunfador no plano individual. O combate para cada cristão, seja qual fosse sua situação, haveria de passar pelo equilíbrio de sua postura interior e exterior, pois estaria sempre dentro de uma dimensão familiar, comunitária, social, profissional, política, Então as tentações variariam e poderiam ser desejos dos bens materiais, bem simbolizados no pão; o anseio da glória, tentando a Deus com súplicas insaciáveis de poder; ou estaria adorando satanás, desejando possuir todos os reinos do mundo. Deveria, porém, o cristão superar suas fragilidades com a proteção divina.

Jesus foi claro com o demônio:” O homem deve viver de toda palavra que sai da boca de Deus”. Nada de sonhos fantásticos que tiram da realidade, criando desconfortos desnecessários por força da ambição que agride a verdadeira riqueza de uma vida simples longe da cascata de gastos que geram as situações mais aflitivas. As artimanhas de satanás encontram no atual contexto histórico campo fértil para fazer os homens caírem em suas armadilhas.

Numa sociedade marcada pelo consumismo, grande a atualidade e universalidade das três tentações a que Jesus se submeteu. Elas são profundamente simbólicas e emblemáticas, mas não menos reais. Reina hoje em dia a insatisfação porque muitos querem o que não precisam, e se precisam vão muito além do que necessitam. Muitos os gastos que nada agregam às reais precisões pessoais e familiares. Muitas vezes não se tem consciência do que é importante no que tange à qualidade de vida e o anseio de um padrão ilusório conduz à infelicidade. A quaresma deve então levar a racionalizar as opções de modo a evitar todo e qualquer excesso que impeça o crescimento pessoal.

Uma atitude mais funcional e racional do consumo material, valorizando, isto sim, aquilo que leva cada um a se sentir espiritualmente mais rico e materialmente seguro. Trata-se de uma revisão de vida nesta preparação para a Páscoa. Cristo que venceu as tentações do demônio no deserto e com sua ressurreição triunfou sobre a morte, deve ser o referencial do verdadeiro cristão que com Ele sempre pode derrotar satanás e seus sequazes. 

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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