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Indiscreto o pedido que os filhos de Zebedeu, Tiago e João, fizeram a
Jesus, uma solicitação especial, em particular, reservada, pois os
dois irmãos temiam expressá-la claramente (Mc 10,35-45). O Mestre,
contudo, os obrigaria a falar detalhadamente. Eles queriam estar a sua
direita e a sua esquerda na glória vindoura, no esplendor de seu
Reino. Pedido surpreendente! Eram eles os que foram entre os primeiros
chamados, mas não tinham ainda compreendido o projeto salvífico de
Cristo. Eles pensavam que Jesus ia organizar um governo terrestre e
já tratavam de garantir os melhores lugares, postos honoríficos no
novo reino. No entanto, Jesus pela terceira vez, enfaticamente, havia
predito sua paixão e morte: “O Filho do homem vai ser entregue nas
mãos dos homens que o hão de matar, mas três dias depois de morto
ressuscitará” (Mc 9,31) Não obstante, seus discípulos discutiam uma
questão de preeminência! Jesus, contudo, mais uma vez com toda
paciência vai lhes explicar a realidade de sua missão neste mundo.
Interroga-os se eles beberiam do seu cálice ou se receberiam o batismo
com o qual Ele é batizado. O cálice para aqueles homens que liam os
Profetas não era apenas o símbolo dos sofrimentos, cálice amargo, mas
o cálice de vertigem merecido pelo povo pecador, este cálice seria o
próprio Jesus quem o beberia. No entanto, Jesus deixa claro que os
apóstolos participariam de sua paixão, de seus sofrimentos, mas o
sentar-se à sua direita ou esquerda era para aqueles para os quais
tais lugares foram preparados. Aqueles discípulos, porém, ante a morte
violenta, injusta, revoltante do Mestre parece que deixavam de lado os
padecimentos, porque o senso do poder, da glória daquele que eles
seguiam para eles era mais importante e que, no serviço de Jesus, há
bons lugares para conquistar e poder, posses, como recompensa.
Pedagogo admirável Jesus, contudo, se serve deste episódio para, como
educador da fé, calmamente, lançar lição que abrange o futuro e depois
o presente. Para o que virá, de fato, os dois irmãos o seguirão nas
veredas das tribulações até a morte como todos os seus discípulos
quando forem chamados para a outra vida. Todos devem um dia morrer,
mas a diferença dos que creem é que eles vão até o fim seguindo o
Ressuscitado. Quanto ao presente qualquer recompensa só Deus o sabe e
Jesus lança uma sentença definitiva: “Quem quiser ser o primeiro seja
submisso a todos”. Os verdadeiros primeiros lugares não são aqueles
que humanamente se imagina, mas esses se encontram no serviço do
próximo, no dia a dia de cada um. Desejar o que é o melhor para nós,
nossos parentes e amigos não é um mal em si, mas cumpre fazer tudo que
se puder no cumprimento de nossas obrigações e de uma ajuda contínua
aos outros, nunca querendo ser superiores a quem quer que seja. Querer
triunfar na vida não é um mal, o erro seria desejar sobrepujar os
outros. Desejar ir para o céu é um salutar anelo, errado seria viver
em função dos valores do mundo, criando a ilusão de ser autêntico
cristão. Jesus deixou claro para os apóstolos que os carismas o Pai é
quem os dá a quem Ele quiser, mas é preciso saber aceitar a cruz, ou
seja, ir até o fim no serviço aos outros e no esquecimento de si
mesmo. Não há fé sem provações, vida cristã interior sem o desapego
dos próprios interesses, É preciso se lembrar sempre do que disse
Jesus: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e
dar sua vida em resgate de muitos “. A prática constante da prece, a
frequência aos sacramentos, sobretudo da confissão e da Eucaristia,
aumentam o amor a Deus e impedem querer ser superior aos outros. Jesus
foi o servo do Pai e, como tal, Ele constantemente prestou atenção às
necessidades de quantos o seguiam. Ele intentava inculcar a Tiago e
João esta realidade de se preocupar antes de tudo com os sacrifícios
que o trabalho apostólico exigiria, deixando o julgamento nas mãos do
Pai. Seus autênticos discípulos deveriam ser capazes de estarem unidos
à cruz de todos os dias por amor, com um sorriso nos lábios. Cruz que
se manifesta nos hábitos de um quotidiano voltado para o bem do
próximo, na fadiga dos trabalhos apostólicos, nas dificuldades que a
implantação do reino de Deus exige. Estar submisso a tudo isto sem
nada querer exigir de Deus. O esforço para tentar se identificar com
Cristo exige muita abnegação. Eis porque São João Paulo II explicava
que a submissão de Jesus atingiu o seu ápice na sua morte na cruz, ou
seja, no dom total de si mesmo. No entanto, Tiago e João estavam mais
preocupados em glórias advindas de seu ministério e não no significado
profundo de um ardoroso apostolado. Restava-lhes ainda um longo
caminho num serviço constante a todos sem distinções de ricos ou
pobres, cultos ou ignorantes, jovens ou idosos para a implantação do
reino de Deus. Jesus estaria ensinando a Tiago e João, aos demais
apóstolos e a todos que quisessem ser seus autênticos pregadores do
Evangelho um apego salutar à cruz de cada dia, deixando tudo nas mãos
do Pai e não na dependência de uma gratificação pessoal.

 

Professor no Seminário de Mariana durnte 40 anos.