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Os textos que se referem ao fim do mundo longe de fixarem uma tragédia, lançam fulgores de esperança anunciando a nova vinda de Cristo (Mc 13,24-32). Esta é a boa nova do Evangelho de hoje. Isto dulcifica as imagens que a apreensão dos tempos escatológicos poderia suscitar. Cumpre ultrapassar a terribilidade dos últimos eventos da história do mundo com esta certeza dada por Jesus de seu retorno com muita potência e glória. Aliás, deixando de lado o que ocorrerá no fim do mundo, qualquer contexto da história está profundamente marcado pela violência, pela injustiça e pelo ódio. Ao anunciar o término da história Jesus proclama, porém o nascimento de uma nova era na qual Deus será tudo em todos e não haverá mais choro, nem desgraças físicas e morais. Então reinará a liberdade, a igualdade e a fraternidade. É para este mundo novo que caminha a humanidade, mas é preciso que até lá sejam mobilizadas todas as energias, almejando sempre a vitória do bem e das virtudes, pela valorização do tempo presente.

Antes do cataclismo final que tudo transformará é necessário preparar a segunda vinda do Filho de Deus a esta terra. Na nossa peregrinação terrena, contudo, Jesus está continuamente próximo dos que O temem e O amam. Diante, porém, da miséria e dos pecados o principal é se mergulhar no poder e no amor do divino Salvador. Coração sempre aberto para acolhê-lo e para viver na sua intimidade. São Paulo então pôde escrever: “Não há proporção alguma entre as tribulações presentes e a glória que Deus vai revelar em nós” (Rm 8,18). Cumpre, pois, um encontro transformante com este Deus na fé em Jesus o qual deve estar no coração de cada um que lhe é fiel, convidando a uma esperança constante “até que Ele venha” (1 Cor 11,26).

Estar unido a Cristo significa viver em plenitude suas lições de vida e santidade. Sua palavra sempre colocada acima das ilusões terrenas e passageiras. A perenidade das mensagens do Verbo de Deus encarnado se sobrepõe à fugacidade dos eventos exteriores. O tempo do verdadeiro seguidor de Cristo é o tempo do amor a Deus e ao próximo, o que oferece consistência a suas ações até a revelação total do mistério divino. É preciso, deste modo, vivificar a capacidade da espera do dia do Senhor. Jesus é o mestre infalível que mostrou claramente que se pode ir a Deus com confiança absoluta. Com efeito, diz a Carta aos Hebreus que Ele ”com uma só oblação tornou perfeitos para sempre os que são santificados”.

É que o encontro com Deus não se dará apenas no final da vida de cada um ou na consumação dos séculos, mas deve se dar todos os dias. É toda a vida do cristão que se torna uma oferenda a Ele em união com a oferenda da própria vida. Este sacrifício espiritual culminará no juízo final. Então os que se firmaram na palavra perene de Jesus estarão de corpo e alma na glória do céu pelos séculos sem fim. Assim sendo, está afastado o medo e reina a mais fúlgida esperança. A vitória final dos bons consagrará a perenidade do que Cristo ensinou, vencida inteiramente a malícia humana pela hora do imenso amor e enorme solicitude do divino Redentor, triunfante com todos os seus fiéis discípulos por toda a eternidade.

Desta maneira é com plena serenidade que se deve abordar o fim do tempo. Cristo veio pela primeira vez para salvar o mundo e Ele afirmou a Nicodemos que o Pai “enviou o seu filho não para julgar o mundo, mas para que por ele o mundo fosse salvo’ (Jo 3,17). É de se notar que no Evangelho de hoje São Marcos não fala nem de castigo, nem de punição, nem de condenação, mas da realização de uma grande cena: “Então se verá o Filho do Homem vir sobre as nuvens”.

Dar-se-á a concretização plena da prece ensinada por Cristo; “Venha a nós o vosso reino”. Através da história guerras, as mais variadas agressões no seio das sociedades, desastres naturais, epidemias, perversidades morais, escândalos, moléstias terminais. Um dia, porém, imperará a ventura perene com a reunião “dos eleitos dos quatro ventos, do extremo da terra ao extremo do céu”. Felizes os que estiverem arrolados entre estes eleitos, porque asseverou Jesus: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar”.

Encarnemos então suas palavras em nossas vidas, lembrando sempre o que Ele aconselhou: “Não tenhais medo, eu estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.