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É bastante intrigante a parábola dos trabalhadores da vinha, por
muitos exegetas denominada os operários da undécima hora (Mt 20,
1-16). Com efeito, o lógico seria, à primeira vista, trabalhar mais
para ganhar mais e foi o que reclamaram aqueles que foram contratados
pela manhã e, no entanto, receberam o mesmo que os obreiros que
trabalharam menos tempo. Aos primeiros o proprietário fixa um dinheiro
por dia. Aos seguintes, ele diz simplesmente: “Eu vos darei o que é
justo”. Aos últimos ele lhes propõe o trabalho, mas não lhes promete
nada, pois deviam simplesmente confiar no contratante.É preciso,
porém, penetrar o significado desta narrativa assim pormenorizada por
Jesus. Deve-se ver inicialmente nesta parábola a ilustração de uma
situação que se vivia no tempo de Jesus e era destinada, inicialmente,
aos judeus. Foram, porém, os gentios os que a abraçaram, enquanto que
o povo judeu no seu conjunto recusava recebê-la. Entretanto, a
mensagem evangélica consistia na realização das promessas seculares
das quais era Israel o povo depositário. Os últimos passavam a
primeiros e os primeiros a ultimos beneficiários do Reino. É de se
notar que a reclamação dos trabalhadores não foi quanto a ordem do
pagamento, ou seja, os últimos recebendo primeiro, mas quanto a
desigualdade da quantia que foi paga. É que Jesus queria chamar a
atenção sobre o apelo feito a Israel que devia preparar-se para
receber o dom supremo anunciado ´pelo Evangelho e isto não aconteceu.
Este foi o momento em que Israel perdeu seu primeiro lugar. Quando
Jesus pregava a Boa Nova a situação tinha por parte dos judeus
inteiramente mudado, como aliás várias vezes o divino Mestre salientou
na sua pregação. Isto ficava claro na maneira como Ele se dirigia aos
mestres da Lei. O cerne, portanto, da parábola era ser desigual o
salário diante de serviços tão desiguais. Ter conhecido Jesus durante
sua existência terrestre foi sem utilidade para os que se haviam
tornado “artesãos da iniquidade”. Jesus deixará patente esta
explicação: “Não é aquele que me diz Senhor, Senhor que entrará no
Reino céus, mas sim o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus”
(Mt 7,21). Eis aí a grande lição desta narrativa. Isso bem
sintetizado também nesta sentença lapidar do Evangelho de hoje: “Os
últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”. A pregação de
Jesus não seria bem entendida por aqueles que estivessem dominados por
preconceitos e paixões. Os corações deveriam sempre estar abertos para
receber as mensagens divinas. A advertência de Deus foi clara “Meus
pensamentos não são os vossos pensamentos e nem os meus caminhos são
os vossos caminhos” (Is. 55,8). É preciso ter o coração aberto para
receber as surpresas de Deus. Nem sempre o ser humano compreenderá, de
imediato, a lógica da ação divina. Na sua perplexidade falta muitas
vezes por parte dos seguidores de Cristo a humildade para se adequar à
vontade do Senhor de tudo. Seja como for, esta parábola dos operários
da vinha mostra a essência do pensamento de Jesus sobre a salvaçáo dos
que não pertenciam ao povo judeu. Como foi dito, fica bem claro que o
contrato do trabalho e seu pagamento não infligiram a estrita justiça.
Nem mesmo esta estrita justiça foi violada pelo fato do contratante da
parábola ter mostrado liberalidade para oom os chamados por último.
Ele tinha todo o direito de fazer o que ele quisesse com o que lhe
pertencia, como habilmente se defendeu o dono da vinha. Sua
liberalidade o levou além do que ele devia pagar aos últimos
contratados. Eis aí a grande mensagem desta parábola: Deus é justo, é
misericordioso, nele nós podemos sempre inteiramente confiar! E assim
que Deus age porque Ele é bom e ama suas criaturas que nele confiam.
É assim que Deus age, porque sua benevolência nâo se opõe à sua
justiça, mas a ultrapassa. Jesus mostra que Deus ostenta sua ternura
perante a miséria humana. Davi então já aconselhava proclamar
agradecimentos ao Senhor de tudo: “Dai graças a Deus, pois eterno é o
seu amor” (Sl 107,1) Ele é um Deus de desvelo, lento em irar-se e rico
em bondade e fidelidade. Felizes os que nele esperam, pois Ele terá
piedade deles como se expressou o profeta Isaias (Is 30,18). Sua
ternura é sem limites: “Eterna é a sua misericórdia” (Sl 136). É isto
que Jesus quis inculcar através da parábola dos operários da vinha.
Nele, portanto, confiemos sempre, porque Ele é o Sumo Sacerdote
poderoso e misericordioso (Hb 2,17) Professor no Seminário de
Mariana durante 40 anos.