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Quando Jesus expulsou os vendilhões do Templo de Jerusalém, os
discípulos se lembraram do que está escrito no Salmo 69: “Devora-me o
zelo de tua casa” (Jo 2,13-25). Indagam os comentaristas: “Que vinha
Cristo procurar no Templo ao aproximar-se a Páscoa? Que esperava o
Filho do Pai encontrar naquele Santuário?” Segundo alguns intérpretes
da Escritura Ele veio reencontrar entre os homens a presença viva
especial de Deus no meio de seu povo. Ele procurava corações voltados
para seu Senhor e rezar com eles. Naquele lugar sagrado Jesus, porém,
depara o mercantilismo, a superficialidade e não a adoração cordial ao
Ser Supremo. Instalados no Templo estavam mercadores de animais¸
trocadores de moeda. Jesus viera a uma casa de oração e descobre um
bando de profanadores do lugar santo. Ao invés de hinos de louvar ao
Pai, barulho ensurdecedor de animais e de vendedores que vociferavam.
Tudo isto provocou a justa indignação do divino Redentor que não
poderia aprovar o que impedia a manifestação de louvor dos verdadeiros
adoradores do Pai. Ali deveriam estar somente os que prestassem o
autêntico culto religioso devido ao Criador. Jesus expulsa então todos
os vendedores e demais profanadores da Casa do Pai celeste. Manda-os
não para trevas exteriores, mas para fora do recinto bendito para que
reconhecessem seu gravíssimo erro e pudessem regressar depois como
adoradores em espírito de verdade do Deus de Israel, sem serem
escravos de um comércio indigno no lugar destinado ao louvor divino.
Estava claro no livro do Êxodo: “Não terás outro Deus que não eu” (Ex
20,1). Apesar da justa e clara lição dada por Cristo aquele Templo de
Deus não foi preservado, pois Israel e Roma precipitaram sua ruina.
Com efeito, o descaso de um lado e a violência de outro concorreram
para esta ruína, não restando senão a esplanada. Não mais oferendas e
sacrifícios ou um Sumo Sacerdote para pronunciar no Santo dos Santos o
Nome inefável do Eterno Senhor. Entretanto, através do Sacrifício do
Calvário, oferecido pelo Salvador, ficou evidente que o poder de Deus
restaria mais forte que todas as idolatrias e que todos os insultos ao
Deus verdadeiro. Jesus mesmo profetizou que os judeus poderiam
destruir aquele Templo, mas, em três dias, Ele o reergueria (Jo 2,19).
Esta predição atravessaria os séculos e deve ressoar fundo dentro do
coração dos seus verdadeiros seguidores. Estes devem, portanto,
refletir profundamente no que significa o Templo de Deus nesta terra,
Trata-se, de fato, do lugar sagrado para se prestar de modo especial
toda honra e glória ao Ser Supremo Por toda parte se ergueriam templos
majestosos, ricos em ouro e prata, ornados pelos artistas mais
renomados, edifícios nos quais brilhariam os esplendores das mais
variadas artes, tudo isto para a glorificação de Deus, mas não seria
este esplendor externo o essencial. De fato, a sincera consagração
interior que o coração de milhares de fiéis ostentariam numa
espiritualidade pura seria sempre o essencial. Eis aí o valor imenso
do Templo no Novo Testamento, no qual se oferece a renovação incruenta
do Sacrifício do Gólgota e do qual se pode verdadeiramente dizer que é
oferecido na Casa Sagrada de Deus entre os homens, seja ela pequenina
como as mais humildade Capelas ou os mais suntuosas Catedrais e
Basílicas. Nelas se encontrariam sempre a salvação do corpo e da alma.
É que a presença de Deus não está, de fato, encerrada entre quatro
paredes, mas o Templo edificado com materiais terrenos passou
verdadeiramente a abrigar corações nos quais este Deus habita, fiéis
que se reúnem para comunitariamente louvá-lo ou individualmente, longe
do bulício do mundo, para estar silenciosamente com Ele em fervorosas
tertúlias, preces que vivificam o mundo. Além disto, cumpre sempre
lembrar que Jesus que esteve neste mundo é o Emanuel, o Deus conosco,
o novo Templo que surgiu nesta terra e em quem residiu a vida mesma de
Deus. Como mostrou São Paulo aos Colossenses, nele habitou com a
humanidade a plenitude da divindade e nele temos plenamente o chefe de
todo principado e de toda potestade (Col 2, 9). São João proclamou
solenemente “O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós e nós
vimos sua gloria. Ora, de sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1,
14. 16). O Templo de Jerusalém, profanado pelos vendilhões, foi
posteriormente destruído. Jesus, Templo vivo de Deus, foi morto e
sepultado, mas as forças do mal não prevaleceram e não prevalecerão
nunca. Cumpre, porém, a todos que creem e sabem valorizar a Casa de
Deus usufruir de todas as graças que ai se obtêm. Além de tudo isto,
é imprescindível nunca se esquecer de que pelo batismo o cristão se
torna também ele o templo vivo da Santíssima Trindade. Séria portanto
a advertência de São Paulo: “Não sabeis que sois o templo de Deus e
que Espírito de Deus habita em vós? Ora se alguém maltrata o templo de
Deus, Deus também maltratá-lo-á Porque sagrado é o templo de Deus e
tal templo sois vós” (1 Cor 3,16). É preciso viver initerruptamente na
presença deste Deus que mora na alma de quem está em estado de graça.
Donde a advertência de São Pedro que se deponha toda malícia e todo
engano, os fingimentos, as invejas e todas as maledicências,
aproximando-nos de Jesus, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas
eleita e estimada perante Deus (2 Pd 2,1-9). Professor no Seminário
de Mariana durante 40