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Jesus deixou claro que a boa-nova por Ele comunicada era recebida
sobretudo pelos humildes, oferecendo-lhes uma mensagem de esperança.
Ouvimos então um clamor de júbilo de Cristo e um louvor ao Pai,
expresso na linguagem dos salmistas: “Eu te louvo ó Pai, Senhor do céu
e da terra”. A razão deste gaudio era porque, embora os sábios e
sagazes não tivessem captado o cerne de sua pregação, os simples a
receberam com grande proveito e perceberam que seu jugo é suave. Para
os simples a pedagogia do Pai para a salvação dos homens produzira um
notável efeito. Durante seu ministério público Jesus havia encontrado
a recusa de uma parte de seu povo. Os menos abertos à sua mensagem
eram os escribas, os especialistas, os doutores que imaginavam possuir
definitivamente a verdade e não tinham mais necessidade de a encontrar
no contato com os outros. Os pequenos, ao contrário, os pobres em
espírito, aceitavam de bom grado abrir-se à esperança que Jesus lhes
oferecia. É certo que Cristo não se rejubilava com esta atitude das
pessoas instruídas, dado que Ele as queria também para o Reino,
rejubilava-se, porém, por ver os humildes se deixarem facilmente
perceber os desígnios de Deus e seu desejo de amor. Esta simplicidade
do coração não era fruto de uma cultura que seria o apanágio dos
ricos. Era uma riqueza do espírito e uma clareza do olhar que nenhuma
ciência pode transmitir, mas tão somente a “ciência do amor”. O
caminho autêntico, a vereda segundo o Evangelho é à base da fidelidade
e da grandeza da alma e ela não se encontra imediatamente no final das
pesquisas dos homens, mas supõe uma vitória de cada um que supera suas
falsidades. Verifica-se entre os cristãos diversos níveis de cultura e
isto é normal, mas não há senão uma salvação, e esta salvação vem
unicamente pela fé em Cristo e não depende daquilo que um homem
encontrou nos livros, mas do que ele escreveu, dia a dia, no livro de
sua vida, este livro que somente Deus pode abrir e fechar. No fundo,
qualquer que seja o grau de nossa cultura, seja ou não brilhantes ou
obscuras a nossa situação, seja qual for nossa profissão, a vida real
é feita de pequenas coisas e uma existência cristã pesa,
definitivamente, sob os influxos do amor, unicamente sob os influxos
da caridade. Tal foi e tal é ainda o bom querer do Pai: que os mais
humildes guardem todas as suas possibilidades face ao Reino de Deus
que vem a este mundo. Jesus não deprecia a ciência e Ele soube
discutir sem complicação com os homens o destino de Jerusalém e
outras verdades. Jesus não aprova a preguiça intelectual nem a
estreiteza do espírito e depois de sua ressureição suscitou como
Apóstolo um São Paulo, que falava perfeitamente duas línguas, teólogo
profundo, um homem preparado por uma longa tentativa de unir a cultura
judaica com a cultura grega, mas aos olhos de Cristo a técnica e o
saber humano devem se colocar ao serviço de uma resposta de fé, deve
se tornar o serviço de um crente que ama como acontece com São Paulo.
Em cada época, especialmente a nossa, a comunidade de Jesus deve se
defender dos novos escribas. Nunca a pesquisa foi tão urgente na
Igreja, pesquisa bíblica, teológica, pastoral e missionária, porque é
preciso proclamar hoje a nossa fé e dar a razão da esperança que está
em nós. Não somos proprietários da Revelação, nós não somos dela os
mestres e não podemos repartir a zero a partir de nossas evidências de
hoje, apagando a obra de Deus, a iniciativa e a Palavra de Deus, o
direito de Deus a ser adorado e servido em silêncio. Este Jesus
mesmo nos á necessário humildemente conhecê-lo porque ninguém conhece
o Filho senão o Pai e é o Pai que revela seu Filho em nós. Na verdade,
Ele no-lo revela como o Servidor que sofre, como um Messias
crucificado e depois glorificado. Eis aí o Evangelho que ninguém
jamais poderá reescrever. Nós não podemos olhar o Pai senão com os
olhos do Filho, nem podemos falar ao Pai senão com as palavras
reveladas pelo Filho. Esse olhar que toca Deus, estas palavras que
agradam a Deus, Jesus, Ele também não os ensina senão aos humildes,
aos homens de boa vontade, àqueles que aceitarem se colocar em sua
escola. O jugo do Jesus é suave, porque ele liberta progressivamente
do peso de nosso egoísmo e de nossas agressividades. Passamos a nossa
vida lutando, mas procurando depois o repouso. A estabilidade vem
depois das circunstâncias favoráveis nas quais podemos enfim servir e
enfim amar. Portanto cumpre entrar no repouso de Jesus, no paradoxo da
humildade, da doçura e da cruz. Jesus é o mestre, saibamos estar
sempre na sua escola. Professor no Seminário de Mariana durante 40
anos.