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Um capítulo de São Lucas nos leva a meditar o que Jesus fala sobre o
futuro (Luc 21,5-19). Ele descreve um futuro longínquo, sua volta no
fim dos tempos e todo um conjunto de acontecimentos misteriosos, cuja
data fica oculta no segredo do Pai Quando Ele evoca o cenário do fim,
Jesus o faz sempre numa linguagem tradicional dos apocalipses e num
grande quadro cósmico que engloba o céu e a terra, o sol, a lua e as
estrelas. Jesus tem também em vista fatos mais próximos como a ruina
do Templo, o julgamento de Jerusalém e retoma as ameaças dos profetas
contra a cidade infiel. Enfim, Jesus faz alusão às provas de sua
comunidade, às perseguições que sofrerão os discípulos através dos
tempo da Igreja. É de se notar que as três perspectivas são
estreitamente imbrincadas e, por vezes, indissociáveis, semelhantes a
fotografias que se projetam, a saber, diante da última destruição do
Templo se perfilam os sinais do fim do mundo, tendo como pano de fundo
o julgamento de Jerusalém quando se proclama a vinda do Filho do Homem
para julgar os vivos e os mortos. Tudo isto impossível de calcular e
inútil querer prever. Entretanto, duas certezas aparecem claramente: a
primeira é que a história do mundo entrou com a vinda de Jesus na sua
fase definitiva, mesmo que esta fase deva durar por centenas e
milhares de séculos, e a segunda certeza é que as declarações de
Jesus, urgentes para hoje, restarão válidas até o fim dos tempos e
por, isto, é preciso aguardar, vigiar, estar atentos. Com relação ao
Templo que estava guarnecido com belas pedras e dons, Jesus afirmou:
“De tudo o que estais vendo, dia virá em que não ficará pedra sobre
pedra que não seja derrubada”. Daí a questão posta pelos discípulos
sobre isto: “Quando, pois serão essas coisas, Mestre, e qual o sinal
do seu próximo acontecimento”? Jesus respondeu, não mostrando um sinal
preciso, mas dando um sinal de valor permanente em todo e qualquer
tempo de provação: “Tomai cuidado para não serdes desencaminhados”.
Depois São Lucas, quase sem transição abre até o fundo a perspectiva
tomando uma palavra de Jesus no que concerne o fim dos tempos, isto é,
haverá fatos terrificantes. O futuro, porém, pertence a Deus, o único
que conhece tudo que acontecerá nos últimos tempos. Quanto a nós temos
o tempo atual para O servir e O amar, praticando o bem e evitando o
mal. Temos o espaço de nosso coração para acolher a palavra de Jesus e
o espaço do mundo para receber com sabedoria suas mensagens de
conversão e de paz. Cumpre trabalhar na construção do templo que é
coração de cada um. É preciso ter a coragem da fé para não se curvar
diante das exigências do mundo e suas ilusões, mas, ao contrário urge
testemunhar fielmente, o amor de Deus, a palavra de Cristo. Aquele
que se entregar à prece estará aberto ao Espírito Santo que lhe dirá o
que deve ser feito. O verdadeiro seguidor de Cristo não se curva às
exigências do mundo, mas pratica em plenitude a caridade, amando
verdadeiramente a Deus e ao próximo e nada, assim, tem a temer. É
preciso irradiar total harmonia, dando um autêntico testemunho do
Evangelho firmar corajosamente o princípio de que o amanhã a Deus
pertence. É pela perseverança que cada um obterá sua santificação rumo
à eternidade. O seguidor de Cristo, porém, será sempre um sinal de
contradição perante as incongruências de um mundo que se aparta das
verdades eternas. O Reino dos céus estará reservado para os que lutam
contra os inimigos da alma e enfrentam uma bela batalha de
ininterrupta fraternidade. O cristão sabe que não há rosas sem
espinhos e o caminho que leva ao céu supõe muita disposição para poder
praticar as virtudes Isto supõe fortaleza interior afim de enfrentar
as dificuldades e vencer as contradições naturais à caminhada por este
mundo. Então, sim, o porvir será sempre encarado com tranquilidade sem
preocupações estéreis. A perseverança no bem é, deste modo,
fundamental, mesmo porque Jesus afirmou: “É pela vossa perseverança
que obtereis a vida” (Lc 21,19). Com a força do amor, abraçado à cruz
de Jesus, aceitando sempre a vontade divina que o cristão marcha
sereno rumo à eternidade junto de seu Deus. A pobre vontade humana
restará sempre firme, imerso cada um na certeza de um final feliz.
Assim sendo, a perspectiva do fim dos tempos longe de levar a uma
resignação condenável, conduz à paciência de se edificar com fé a
própria vida sem atitudes estoicas e apreensões fúteis no que tange a
consumação dos tempos. A paciência na qual deve viver o cristão o
sustem longe de qualquer apreensão atinente ao fim do mundo, dado que
quem ama Jesus tem a garantia da vida eterna.

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.