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 Primorosa, sem dúvida, a narrativa do encontro de Jesus com os discípulos de Emaús sob o ponto de vista literário, mas, sobretudo, pelos aspectos psicológicos que São Lucas com maestria suscita. (Lc 24, 13-35). A vida humana à semelhança do que ocorria com Cléofas e seu companheiro é um caminho, alternando-se nele momentos de ausências dolorosas e encontros inesperados; instantes de obscuridade aos quais se sucedem ocasiões de alegria e luminosidade. Em qualquer período da existência ao olhar o percurso feito nesta terra cada um reconhece que às tempestades se sucede a bonança e, tantas vezes, à serenidade sobrevêm as borrascas. Em todas estas circunstâncias sempre surgiu, porém, alguém a amparar na agitação ou para moderar na euforia, ou seja, um pai, uma mãe, um amigo ou até uma inspiração interior dando sentido ao que estava acontecendo. Foi o que sobreveio aos discípulos de Emaús que iam curtindo sua dor depois da morte de Jesus. Suas vidas pareciam não ter mais sentido, a esperança estava perdida. O Mestre amado morrera ignominiosamente no alto de uma colina sobre um infamante madeiro. Tudo estava acabado! Tinham o semblante melancólico, marcado pela profunda tristeza. Alguém se junta a eles, para lhes mostra

r que a vida é mais forte do que a morte. Suas mentes iam se transformando à medida que as Escrituras eram explicadas por aquele que se juntara a eles. Seus corações passaram a arder a cada palavra que atentamente ouviam. Seus olhos, contudo, estavam obnubilados, ofuscados. Eis aí um paradoxo que surge para muitos que têm fé, pois diante dos sofrimentos, das incongruências do dia a dia a oferecer trágicas rupturas aparecem as dúvidas e a desesperança se instala. Os discípulos de Emaús diziam que esperavam o sucesso de Jesus, o que significa que a desilusão se apossara deles. Quantos diante das intempéries se põem a se interrogar: “Como isto pôde advir!’? “Porque Deus permitiu este dissabor”? “Onde está Ele, o Pai amoroso”? Entretanto, é preciso nunca perder o rumo bem alerta o episódio de Emaús. Aqueles seguidores de Jesus, abatidos, tiveram uma pulcra inspiração ao chegar à estalagem, convidando aquele misterioso senhor a ficar com eles. Eis aí, o que todo cristão deve fazer ao enfrentar os problemas existenciais. É dizer a Jesus: ”Não me abandones, permanece comigo”. Coisas maravilhosas acontecerão, pois a ansiedade passará. Ele tem o poder de encorajar, de amparar e ofere

cer soluções oportunas. No caso de Cléofas e seu companheiro à hora do partir do pão na refeição que tomavam reconheceram Jesus que lhes dissipou toda amargura, pois ele estava vivo e tinha ressuscitado dos mortos. Jesus desapareceu, mas deixou um rastro de luminosidade dentro daqueles corações. Presença e ausência é bem o sentido de toda vida humana. Ele está presente junto de quem lhe é fiel pela fé que por vezes não é tão intensa em todas as horas e vem o sentimento de que Ele está longe, dado que não O vemos com nossos olhos. Podemos, sim, senti-lo bem perto através do invisível da Eucaristia e de sua presença lá no íntimo do coração, como fonte de toda esperança, de todo conforto. Então é preciso ir adiante e anunciar que com Jesus o sol brilhará sempre, a energia não faltará nunca e a caminhada continua com suas alternâncias, mas sem desfalecimentos. O cristão passa a compreender que não basta saber que Jesus está vivo e a seu lado, mas é preciso crer nisto e abrir-se sempre à 

esperança. É o passar do conhecimento a um encon

tro real com Cristo que nos faz viver de sua vida gloriosa, vitoriosa. Como aconteceu com os discípulos de Emaús, Jesus está sempre falando à consciência de cada um, mas é preciso ter ouvidos e olhos atentos a sua Palavra nas mais diversas situações que se atravessam. A presença de Cristo na Eucaristia é o indício certo retrospectivamente de sua presença no cotidiano de cada um que nele crê e espera. Cristo se manifestou aos discípulos de Emaús ao partir o pão e sua presença se dá também em nossas partilhas de vida, quando levamos aos outros nossa ajuda generosa para o corpo e para a alma através de doações oportunas ou de mensagens que vivificam os tristes e desamparados. Então se perceberá como é bom estar com Jesus que v

enceu a morte e nos dá alegria e paz.

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.