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Neste primeiro domingo da quaresma contemplamos Jesus no deserto, onde
passou quarenta dias, sendo aí tentado por satanás. Depois Jesus foi
para a Galileia e advertiu: “Completou-se o tempo e está próximo o
reino de Deus. Fazei penitência e crede na Boa Nova” (Mc 1, 12-15).
Admirável a concisão de São Marcos a qual não embaça a intensidade dos
acontecimentos e de suas preciosas mensagens. Inicialmente, o mistério
do deserto para onde o Espírito impeliu Jesus, lugar de um encontro
privilegiado com a divindade como havia sido descrito no profeta
Oséias. Lá Deus fala ao coração (Os 2,14). João Batista foi uma voz
que clamou no deserto, concitando a uma digna preparação do caminho do
Senhor. Jesus ficará no deserto 40 dias, ou seja o mesmo tempo que
gastou o profeta Elias para chegar através do deserto até à montanha
de Deus, o Horeb (1R 19,8) Eis porque. Conforme São Marcos Jesus foi
levado ao deserto pelo Espirito não somente para aí ser tentado pelo
diabo, mas também para celebrar a aliança com o Pai e daí partir para
cumprir sua missão. Segundo este evangelista Jesus estava com os
animais selvagens. Note-se que esta expressão “estar com” em São
Marcos tem especial importância. Mais tarde ele a empregará para falar
da relação entre Jesus e seus discípulos. Ele registrará no capítulo
terceiro que Jesus instituiu os doze inicialmente para estar com Ele
e, depois, para os enviar a pregar. “Estar com” em São Marcos
significa uma proximidade, a partilha de uma íntima amizade. Se há
esta insistência sobre a vizinhança entre Jesus e os animais
selvagens, é para evocar a realização das promessas messiânicas do
profeta Isaías. Estas promessas foram ouvidas na liturgia da noite de
Natal: “Despontará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará
de sua raiz Sobre ele repousará o Espírito do Senhor [,,,] Habitarão
juntos o lobo e cordeiro […] Não causarão mal algum em todo meu
santo monte . É que com o Messias se instaura uma nova harmonia entre
o homem e a criação, encontra-se novamente a paz do paraíso perdido. E
se dá a aliança prometida a Noé: “Eis que eu estabeleci minha aliança
convosco, com vossos descendentes e com todos o os seres vivos que
estão em vosso derredor”. Realizada a primeira aliança, o Messias pode
então anunciar aos homens: “Completou-se o tempo e está próximo o
reino de Deus. Fazei penitência e crede na Boa Nova”. Deste modo, em
poucas palavras tudo nos é comunicado sobre a vida e missão de Jesus
que afronta vitoriosamente o mal e reconcilia a criação e anuncia a
Boa Nova. São Pedro com razão salienta a presença do Espírito Santo no
mistério da Páscoa de Jesus: “Cristo ele mesmo foi uma vez morte pelos
pecados, justo pelos injustos, afim de nos levar até Deus. Entregue à
morte segundo a carne, foi vivificado conforme o Espírito”. Durante
toda sua vida é este Espírito que age em sua obra. É tudo isto que
nos está a lembrar este trecho do Evangelho de hoje. Marcados pelo
selo do Espírito Santo entramos no combate da fé, e pelo poder do
Espírito Santo entramos na paz da nova criação, do Paraíso renovado.
Para isto a penitência preceituada por Jesus é indispensável,
lembrados, contudo, que é Deus, nosso Pai que produz em nós o querer e
o fazer, segundo seu desejo benfazejo como bem lembrou São Paulo aos
filipenses (Fil 2,13). Jesus quarenta dias no deserto fazia
penitência e, assim partilhava a doce harmonia da criação reconciliada
do reino de Deus que se aproximava da humanidade. A situação de Jesus
era emblemática Jesus no deserto tentado por satanás, mas em harmonia
com as criaturas e, após, num caminho pessoal de anunciar fielmente a
Boa Nova. Boa Nova de Deus cujo segredo manifestará plenamente. Pôr
isto Ele pôde se dirigir a nós e aos homens de todos os tempos
mandando fazer sacrifício e a crer na Boa Nova, ou seja, anunciá-la
por toda parte. O seu discípulo deveria então estar em estado de
conversa contínua demonstrando initerruptamente sua profunda fé no seu
Evangelho. Isto na novidade de cada instante da vida de cada um,
melhorando dia a dia nossa maneira de ser, dando valor a tudo que está
em nosso derredor. Uma nova maneira de ser por que o reino de Deus
está a nosso alcance. Daí a importância desta quaresma que se inicia,
prestando atenção uns aos outros para estimular na caridade todas as
boas obras. Quarema é tempo de tempo de penitência, da caridade, de
abertura total à verdade de Jesus, o que significa, de fato, viver a
Boa Nova. Portanto, realmente, poucas palavras no trecho de São
Marcos, objeto de nossas reflexões, mas incitamento a muitas ações;
pouco discurso, mas muita ação, levando a realizações concretas,
imediatas. Jesus no deserto se mostrou fiel ao Pai e na harmonia da
criação o pensamento organizador de Deus rebrilhou fulgurantemente.
Sigamos seu conselho, façamos penitência e creiamos na Boa Nova. *
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.