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Nunca se reflete por demais no mistério de um Deus uno e trino,
verdade que Jesus trouxe do céu à terra. Ele inclusive ao ordenar que
todos fossem batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
remetia o batismo ao magno mistério divino (Mt 28,19). Gregório
Naziazeno, notável teólogo do século quarto, assim se expressou:
‘Adoramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo, distinguindo três pessoas
e unindo a divindade, sem reduzir os três a um só para não incorrer no
erro de Sabélio: nem os separamos e dividimos em três coisas diversas
e estranhas, para não incorrer no erro e loucura de Ario’. Sabélio,
heresiarca do século terceiro, negava, com efeito, a distinção das
três pessoas divinas e Ario, outro herege daquele século, combatia a
unidade e consubstancialidade das três pessoas e afirmava que o Verbo,
tirado do nada era muito inferior ao Pai. Os concílios de Nicéia e de
Constantinopla expuseram a doutrina correta sobre a Trindade,
fulminando os erros que iam sendo disseminados. Foi rechaçada tanto a
redução viciosa, como a divisão, mais absurda que a primeira. Gregório
Naziazeno doutrinava, porém, que não se deve investigar com mera
curiosidade a vida íntima de Deus ou seja como o Filho procede do Pai
e como o Espírito Santo, procede do Pai e do Filho. Quem se põe a
mirar de frente os raios do sol fica com a vista obscurecida pelo
excesso de claridade, vencendo o astro a força da visão. Com muito
mais forte razão, aturdida fica a inteligência humana se quiser
abarcar a luz infinita do Ser Supremo, Transcendente, Realidade que
tudo determina, Criador todo-poderoso. Deus é aquele para além do qual
nada de mais elevado se pode pensar, como ensinou Anselmo de Cantuária
(Prosl.2) À razão humana, entretanto, lhe basta saber que não há
absurdo no mistério trinitário. O Filho é, com efeito, o Pensamento
increado, eterno, consubstancial ao Pai e o Espírito Santo é o amor
increado, eterno do Pai para com o Filho e do Filho para com o Pai,
três pessoas distintas na unidade da substância divina. O principal,
entretanto, é colher os frutos desta fé na Trindade. Não se trata de
uma verdade meramente especulativa, mas profundamente dinâmica,
exigindo atos vitais e distintos, envolvendo toda vida natural do ser
racional. Cumpre, em primeiro lugar, adorar a Trindade num ato de fé
que imerge o cristão na união mais beatificante por contemplar no Pai,
o Criador de tudo; no Filho, o Salvador e no Espírito Santo, o
santificador, que ilumina, consola, cura e salva a fraqueza humana.
Disto resulta um grande amor às Pessoas divinas, pois, como muito bem
diz o adágio popular ‘amor com amor se paga’. Coincide a adoração a
Deus com uma profunda dileção para com este Ser Subsistente. É
preciso, além disto, que se imite a Trindade, mistério sublime de
unidade. O desejo de Jesus tem que ser realizado: ‘Que todos, ó Pai,
sejam um, como Tu e eu somos um’ (Jo 17,22). A união perfeita dos
cristãos entre si é, nas ações de cada hora, uma grande homenagem ao
Deus Uno e Trino. Viver em função da Trindade deve ser o lema do
verdadeiro crente. Este Deus que mora lá no íntimo de cada coração (Jo
14,23), instrui pela palavra, sobretudo quando os cristãos estão
reunidos numa assembleia litúrgica. Pela graça Ele ilumina, fortalece
e sustenta quem com Ele convive. Pela Eucaristia faz crescer a
participação na Sua vida divina. Pela esperança enche de júbilo a
existência dos que Lhe são fiéis. Para isto cumpre estar continuamente
em tertúlia com Ele, cuja presença é sempre fonte de vida e de luz.
Encontramos, de fato, a Deus Uno e Trino no reconhecimento e no
agradecimento por tudo que Ele, minuto a minuto, concede a cada um. É
a integração entre fé e vida. É a seriedade da auto experiência
pessoal que se passa a ter do Criador que chama sem se impor, mas que
beatifica quem livremente O procura e nele encontra a razão de ser de
sua existência. Na sua infinita bondade ele oferece ao homem
participação na vida do seu mistério. Este Deus Uno e Trino é, na
verdade, o Emanuel, o Deus conosco, mas é mister que se viva
plenamente esta realidade que traz perspectivas realmente faustosas.

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos