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Notável São João Batista, por ter sido ele o mensageiro que preparou o
caminho do Salvador da humanidade (Jo 1, 6-8.10-28). Ele deu
testemunho da luz verdadeira que veio a este mundo. Tal deveria ser,
através dos tempos a missão do seguidor de Jesus. O Percursor foi um
personagem excepcional. Admirável sua fé profunda, sua irradiante
humildade, fiel até o fim a sua sublime missão. Personagem
excepcional, o último dos profetas. Trata-se de saber como bem viver
este tempo do advento. Nada de um planejamento artificial. O Batista
foi claro: “No meio de vós se encontra um que vós não conheceis: ele
veio depois de mim e eu não sou digno de desatar-lhe as correias das
sandálias”. No contexto histórico no qual esta sentença foi
proferida, aqueles que vinham receber o batismo no Jordão pelas mãos
do Precursor de Jesus não O conheciam. Entretanto, João, o Evangelista
escreveu seu Evangelho 70 anos mais tarde e ele se dirigia a uma
comunidade de batizados que procuravam seguir a Cristo e discutiam as
Escrituras. Esta frase do Batista ressoava para eles de uma maneira
surpreendente, como acontece em nossos dias. Vale ainda hoje a
assertiva de que no meio de nós está Aquele que não conhecemos. No
cerne desta afirmativa está o verbo conhecer que vem do latim
cum-nascere, ou seja, nascer com. Conhecer com alguém é nascer com
ele, num processo que exige muita humildade sobretudo no que diz a
Jesus, que foi em tudo manso e humilde de coração. Esta é uma condição
primordial para auferir as graças natalinas. É preciso se despojar de
todos os preconceitos pessoais e tomar em consequência resoluções
imediatas, sem nenhuma tergiversação. Apenas assim se pode estar
totalmente à escuta das inúmeras inspirações que vêm do Presépio.
Escutar Jesus, crescer com Jesus, vivendo sempre com Ele. Nada de
presunções humanas, enquadrando o divino Redentor nos próprios moldes
mentais, negando a sublimidade de seu mistério, de seu ser profundo. É
tudo isto que o testemunho de São João Batista recorda, pois no meio
de nós está alguém que devemos conhecer. Cumpre, então, afastar todo
orgulho, a exemplo do que fizeram através dos tempos os grandes
místicos. Deste modo o cristão não se deixa abalar pelos imprevistos
da vida, pelos percalços que costumam surgir, entraves naturais para
seres contingentes, finitos, limitados. Foi após seus sofrimentos que
Jó assim falou a Deus: “Eu não te conhecia senão por ouvir falar de
ti, mas agora meus olhos te veem” (Jó 42,5). Depois de deparar a
figura do Salvador, será mais fácil imitar João Batista também na
pobreza, na simplicidade e demais virtudes como resultado do
Reencontro com o Filho de Deus no seu Natal. Outra diretriz do
Precursor é “aplainar o caminho do Senhor”, comparando-se a uma voz
que clamava no deserto. Quando se explora um deserto é preciso levar
um roteiro, água e bússola. Na sua época, o Batista interpelava as
pessoas porque elas estavam perdidas, andando sobre uma terra seca
longe de Deus. Conduzia a todos para uma rota a mais segura, ou seja,
Jesus Cristo. Hoje aplainar o caminho do Senhor significa seguir o
caminho, ou seja, acompanhar Jesus através do deserto espiritual longe
das insídias do mundo moderno. Devemos então saber onde encontrar a
água viva que é o Filho de Deus, seguindo o roteiro proposto pela
liturgia e tendo como bússola a Igreja. Devemos ser agradecidos a Deus
pelo dom de seu Filho que nos guia neste mundo para saciar nossa sede
do verdadeiro amor às verdades externas e para nos consolar por entre
as vicissitudes terrenas. Trata-se de praticar com eficiência todas as
virtudes que nos aproximam das realidades celestiais recordadas pelo
Natal. Cumpre agradecer a Deus pela dádiva de seu Filho, nosso caminho
neste mundo, fazendo uma salutar mortificação de tantas coisas das
quais se deve privar para o bem próprio da saúde do corpo e da alma.
João Batista deixou claro que ele não era Elias, aquele que deveria
inaugurar o fim dos tempos; não era um profeta como Moisés, destinado
a renovar os prodígios do Êxodo, do qual falou o Livro do Deuteronômio
(Dt 18,15). São João Batista deixou patente que ele era, isto sim,
como dizia o profeta Isaias a voz que ressoa no deserto: “Aplainai o
caminho do Senhor” (Is 0,3). Voz não de alguém que fascina e atrai os
outros para si, mas uma voz inteiramente a serviço da mensagem que
estaria sendo proclamada ao mundo pelo Redentor diante do qual deveria
se ajoelhar todo aquele que, de fato, O procurasse conhecer. A exemplo
de São João Batista todos os cristãos deveriam, portanto, por toda
parte dar testemunho da Luz. Professor no Seminário de Mariana
durante 40 anos.